15/02/2012

Fábula das Borboletas




Fábulas das borboletas 
(Aos heróis e à santa vaidade) 
Ia a bela borboleta
Borboleta que era bela
Mais que toda borboleta
Borboleta igual a ela

E sonhava um lindo sonho
Mais que sonho, era missão
Para o mundo torto e feito
Ela tinha a salvação

Para tanto bastaria
A beleza revelar
Quando o homem reparasse
A maldade ia acabar 

Mas no meio do jardim
Ela voava esquecida
Porque todos quando olhavam
Viam a flor preferida

Entre tanta violeta
Tanta rosa e margarida
Ia triste a borboleta
Por não ser nem percebida
Invejava a andorinha
Mesmo sem ter formosuras
Olha o mundo lá de cima
Ela é vista das alturas
 
Foi assim que percebeu
O que tinha que fazer
Era só voar bem alto
E o mundo iria ver

Nunca é tarefa fácil
Negar toda natureza
Borboleta voa baixo
Alta é só na leveza

Mas lá foi a nossa amiga
Consciente da missão
Eis que um vento lá de cima
A devolve para o chão

Não desiste segue em frente
A fazer tamanho intento
Mas de novo ela retorna
Ao menor sobro do vento

Tenta ainda novamente
Bate as asas sem parar
E por mais que sopre o vento
Ela consegue avançar

Bate as asas mais um pouco
Vai mais uma… duas… três…
Quando surge a andorinha
E a engole de uma vez


Lá se foi a borboleta
Borboleta que era bela
Mais que toda borboleta
Borboleta igual a ela

Se te queres borboleta
Que seja! Mas quando fores
Não te tentes a voar
Para além daquelas flores


DOIS PEDREIROS

Dois pedreiros

Dois pedreiros debatiam
Coisas sobre construção
Água e óleo, noite e dia
Entre os dois não haveria
Fim pra tanta discussão

Pois pra tudo que diziam
Um fazia objeção
Vinha o outro e retrucava
Com certeza que afirmava
A verdade da questão

Um dizia que na norma
De quem põem-se a construir
Tem que o certo só combina
Do debaixo para cima
Ou a casa há de cair

O outro não olhava a forma
Do modelo a seguir
Não há um que prevaleça
Até de ponta cabeça
A casa pode erigir

Como não havia jeito
De dar fim à confusão
Decidiram apostar
Ambos tinham que criar
Sua própria construção

Pois o trato estava feito:
Uma casa em perfeição!
E o povo irá votar
Sendo aquele que ganhar
O outro deve dar razão

O primeiro iniciou
Pôs as mãos a trabalhar
Alicerce bem armado
Chão, parede e o telhado
Só faltava retocar

Ele assim continuou
E ao final foi exclamar:
“Como havia combinado
Ficou tudo bem montado
Qualquer um pode morar

Só que bem ali do lado
O outro se foi na missão
Surpreendendo o adversário
Construiu tudo ao contrário
Telhado parede e chão

Depois de ter acabado
Pôs a casa no lugar
Em enorme euforia
A plateia aplaudia
Mas ninguém quis lá morar



11/02/2012

O PEIXE SERRA E A LULA DO MAR


O Peixe Serra e a Lula do Mar
  
Certa vez o peixe serra
Quis se autoproclamar
Rei de todo lado sul
Dessas águas deste mar

Antes disso precisava
De algum jeito se livrar
De uma certa lula esperta
Que impedia ele reinar

Tinha já tentado tudo
Mas em tudo ele falhava
Armou tantas armadilhas
Mas a lula lhe escapava

Todos os demais peixinhos
Que antes eram só ração
Também já se organizavam
Pelo fim da escravidão

Foi então que o peixe serra
Encontrou a solução
Foi direito no correio
E escreveu ao tubarão:

“Ó senhor dos oceanos
Magnânima excelência
Clamo para que aqui venha
E que tome providência

“Uma lula apareceu
Lá do fundo deste mar
Fez do mundo uma bagunça
Mudou tudo de lugar

“De tal sorte que isto vai
Que este mundo está invertido
É peixinho dando ordem
E peixe grande engolido”

E o tubarão enraivado
Respondeu ao peixe serra
Que queria a descrição
De tal lula como era

“É um ser feito de ganância”
Respondeu ao tubarão
“Antes passa por amigo
Depois fere a traição

“De um terrível mau feitio
Quando alguém o desacata
Num descuido ele avança
E onde acerta é certo mata

“Declarou-se o novo rei
Dessas águas deste mar
E trucida qualquer um
Que ousa o dedo levantar

“Da forma que eu descrevi
O senhor não vai errar
Eu só torço que o encontre
Antes dele lhe encontrar”

Decidido o tubarão
Por as coisas no lugar
Foi de Norte para Sul
Para a lula liquidar

E sedento pelo sangue
Corta o mar feito uma lança
De tal sede se sacia
Quando o ser descrito alcança

Quando viu a criatura
Tão igual a descrição
Não restou pingo de dúvida
Avançou o tubarão

E foi numa só dentada
Que pôs fim a toda guerra
Da mesquinha criatura
Sobrou mesmo… só a serra
Lula é que foi herói
Dessas águas deste mar
Transformado em grande rei
Mas que nunca quis reinar 




12/01/2012

Visões do Brasil


Baseado na obra Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda:
Visões do Brasil
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...A travessia que o diabo fez no grande mar em 1500, levando a fé e o pecado simbolizados na cruz.


(diabo) Paranagoaçu raçapa,
Ibitiribo guibebebo,
Aço Tupi moangaipapa
(servo) Bae apiaba paipó?
(diabo) Tupinaquijã que igoara

Atravessando o grande mar,
Voando pela serra,
Vou fazer os tupis pecarem
Que índios são esses?
Os tupiniquins, habitantes daqui
(Na Aldeia de Guaraparim, Anchieta)


Na época da Renascença, os ocidentais têm a surpresa de constatar que o império do diabo é muito mais vasto do que haviam imaginado antes de 1492. Os missionários da elite católica em sua maioria aderem à tese expressa pelo padre Acosta: desde a chegada de Cristo e a expansão da verdadeira religião no Velho Mundo, Satã refugiou-se nas Índias, da qual fez um de seus baluartes. (Delumeau: História do medo no Ocidente)
Brasil, o Paraíso
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"E o grande mal da Europa, economicamente, foi sempre o mesmo, incurável: auri sacra fames, fome, sede de ouro
(Lucien Febvre, A Europa).
Brasil, O "outro Peru"
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Fazer do Brasil um “outro Peru” foi o sonho de Tomé de Sousa, presente em todos os atos de sua administração.
Essa ideia obsessiva há de levá-lo, em dado momento, ao ponto de querer introduzir duzentas lhamas andinas no Brasil. E recomenda-se no mesmo documento que das ditas lhamas se fizesse casta e nunca faltassem. Já seria essa, à falta de outras, uma das maneiras de ver transfiguradas as montanhas de Paranapiacaba numa réplica oriental dos Andes.
O que saíam a buscar em nossos sertões tantas expedições custosamente organizadas não era tanto o ouro como a prata. E nem eram diamantes. O que no Brasil se queria encontrar era o Peru, não era o Brasil. (Sergio Burque de Holanda, Visão do Paraíso)
Brasil, a "outra Paris"
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Pardais, símbolos da cidade de Paris, foram importados e soltos nas novas avenidas. Ainda hoje há quem diga que tais aves, corriqueiras do ambiente urbano, são “brasileirinhas da silva”.
Brasil, a "outra Atenas"
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Mas o mito também teve outras faces… Sentindo-se como “desterrados em sua própria terra” que já quase nascem com vontade de voltar, a urgência de ser outra coisa acompanhou o povo brasileiro por muito tempo, se fazendo presente também naquela necessidade maranhense de ser a “outra Atenas”, constituída de uma pequena, mas abastada intelectualidade, que foi estudar no exterior, e na volta quis fazer-se valer pelas letras diante de uma população de analfabetos. Suas obras não se tornaram corriqueiras como os pardais. Mas ainda estão lá, tão brilhosas quanto pouco lidas. 
Brasil, o "pais do futuro"
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Entretanto, aquela vontade de ser outro, companheira de longa duração no imaginário brasileiro, começa a se dissipar. A necessidade de fazer do Brasil um “paraíso perdido”, um “outro Peru”, uma “outra Paris” ou uma “outra Atenas” vai ficando para trás em um passado cada vez mais distante e inofensivo, tornando-se apenas objeto de estudo do Historiador. Perdeu espaço diante dos avanços econômicos e sociais ocorridos nos últimos anos. O Brasil começa a se fazer presente como peça atuante no jogo geopolítico internacional e desponta, cada vez mais, como potência econômica de dimensão continental. 


Assim, a necessidade de reconhecer-se enquanto outro vai dando lugar a vontade de ser o “Brasil o país do futuro”.


Ao Historiador, “desde que se interesse nas coisas do seu tempo”, cabe dar um passo a frente. Sair do passado. Colocar-se no seu tempo. E indagar se esse “país do futuro” não é apenas a mesma permanência, velha de vários séculos, que insiste em querer fazer do Brasil outra coisa além de si próprio.  

YSEMSOMA



31/07/2011

O LAGARTO E A SERPENTE


O Lagarto e a Serpente

Aos mais honestos políticos brasileiros


O lagarto não se emenda
Quando a cobra está por perto
Nas pontas dos pés, é certo
Vai ser dia de contenda

E o motivo dessa briga
É porque é voz corrente
Ter por vil e menos gente
Quem rasteja de barriga

E lá vai o nosso amigo
Sem olhar o próprio umbigo
Rebaixar a companheira
Que se arrasta na sujeira

Sem também deixar barato
A cobra assinala o fato
De que os dois são bem iguais
Mesmo que um se arraste mais

E assim diz Dona Serpente
-Você não é diferente
Pois sua barriga alisa
O mesmo chão em que pisa

E o lagarto se revolta
Dá bem uma e outra volta
Equilibra-se empinado
E protesta indignado

Você nem merece fé
É castigo que Deus deu
Pois se arrasta mais que eu
Que ao menos tenho pé

Quem não faz comparação
Dos políticos que temos?
Um diz que não é ladrão
Só porque roubou bem menos

18/04/2011

O Milho e a Abóbora


O Milho e a Abóbora

Entre o milho e uma abóbora
A disputa era sem fim
Todos dois se proclamavam
Os melhores do jardim

Nessa o milho se enfeitava
O sabugo, a espiga e o grão
Do sol tinha o amarelo
Tudo belo, em perfeição

Mas a outra e desdenhava
E lhe via desbotado
Pois cor mesma mais bonita
Era o seu alaranjado

Ia o milho e revidava
"Mas que abóbora invejosa!
Mulher gorda e carrancuda
Ninguém chama de formosa”

E as ofensas prosseguiam
Toda guerra é sempre assim
Nada bom virá do outro
Pois o bem só vem de mim

Era o milho para a abóbora
Só ração para canário
Mas era ela para o milho
Que não dava algum salário

“Nem se pode perder tempo
Trabalhando no cultivo
Essa aí vale bem menos
Do que solo improdutivo”

“Esse sim que não merece
Nem cultivo e nem trabalho
É melhor plantar um só
Pra que sirva de espantalho”

Era assim que a vida ia
Sem que um fosse convencido
Não se tinha um vencedor
Nem tampouco algum vencido

No fim eles empataram
E chegaram em primeiro
Mas o podium foi o prato
Do mais rico fazendeiro

É assim infelizmente
O desfecho da contenda
Enquanto os dois guerreavam
Sustentavam a fazenda

Porque a guerra entre os iguais
Só dá fruto sem sabor
Ambos são subjugados
Por outro… dominador

11/09/2010

FOLHA SECA



FOLHA SECA

O vento carrega a folha prá cá
E ela queria mover-se prá lá
Quando consegue seguir mais acima
A forte enxurrada que vem da esquina
A põe de volta no mesmo lugar
Que as folhas ficam depois de secar
No fundo de alguma vala qualquer
Este é o destino... Não há o que fazer

As folhas da árvore davam risada
Do triste fim da mal aventurada

Se a folha seca pudesse, diria
Que todas as folhas secam um dia

Assim é que o homem torna-se fera
A rir-se do fim que ainda o espera

30/01/2010

REI DA SELVA



(A todos que não se curvam a quem tem sede de poder)


Rei da Selva

Lá na mata quem mandava
Era mesmo o gavião
Qualquer bicho que passava
Continência lhe prestava
Prova de submissão

Quando algum desafiava
Não havia salvação
Pois o rei não perdoava
E do bicho só restava
Pelo ou pena pelo chão

Eis que um dia apareceu
Um tucano a falar:
“Considerem tudo meu
Pois, lhes digo, serei eu
Quem na mata irá reinar”

Mas ninguém se convenceu
“Como?” foram perguntar
E o tucano respondeu:
“Ninguém nunca me venceu
Vim aqui lhes libertar

“Quando ao trono eu chegar
Mudo toda essa estrutura
Vão ter casas pra morar
Ninguém vai ter que caçar
Pois darei tudo em fartura”

Eis que surge o gavião
Pondo os bichos a correr
É uma enorme confusão
Todos vão sem direção
Procurando se esconder

Só o tucano ali ficou
“Hoje lhe vou expulsar!”
E depois continuou:
“Eu só saio de onde estou
Pra tomar o seu lugar”

O rei disse: “Já morreu!
Vai penar na minha mão”
Mas alguém apareceu
Foi um tiro só que deu
E espantou o gavião

“Como vê, senhor tucano
Eu cumpri com a promessa
Falta ainda nosso plano
Vou lhe dar ainda um ano
Pra pagar sem muita pressa”

Se foi bom isso eu não sei
O homem, sei, não se deu mal
O tucano, lhes direi
Ele virou mesmo rei
Lá no zôo municipal.

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